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Sunday, 26 October 2014

Paraíso



Paraíso é num sábado de fim de outubro querer almoçar à beira-mar ou rio, ter muito por onde escolher e optar por uma esplanada numa das praias de Gaia. No final de almoço, descer até ao areal e caminhar com os pés enfiados no mar, mais quente do que em muitos dias de verão, e resmungar por não ter levado biquíni nem toalha.
Paraíso é estarmos no outono e ser novamente verão.
Paraíso é ser outono e, mesmo se estiver tempo de outono, haver sítios assim para passear.
Paraíso é viver no Porto.

Tuesday, 22 July 2014

Estar em casa / Being at home

Peguei no carro, abri as janelas, pus algumas das músicas de que mais gosto a dar e conduzi pela marginal desde Massarelos até Matosinhos, sem objetivo nenhum, apenas o de ver o rio, o mar e o nevoeiro. E concluí, uma vez mais, que o mundo lá fora pode ter coisas maravilhosas, pode ter edifícios emblemáticos, línguas encantadoras e pessoas incríveis, mas é da beleza do Porto de que mais gosto e é com ela que me sinto em casa.



I entered my car, opened the windows, played some of my favourite songs on the radio and drove along the marginal way from Massarelos to Matosinhos, with no destination, only wanting to see the river, the sea and the fog. And, once more, I concluded that the world out there can have wonderfull things to see, can have fantastic buldings, charming languages and awesome people, but Porto's beauty is the one I like the most and  only when I am surrounded by it, I feel I am at home.

Monday, 21 July 2014

Marvão

Conheço Portugal de norte a sul muito por alto. Vou conhecendo algumas cidadezinhas de cada região, umas melhor do que outras, mas não sou uma conhecedora profunda do meu país, até porque acabo por repetir as cidades de que mais gosto e onde tenho as minhas pessoas.
A meio de um ano cansativo, desgastante e polvilhado de incertezas, surgiu o nome Marvão para passar três dias a não fazer nada mais do que ver televisão no quarto, tomar o pequeno-almoço na cama, apanhar sol, pastelar nas horas e tomar banho antes mesmo de ir para a cama.
O hotel El-rei Dom Manuel não me pareceu, à primeira vista, o sítio ideal para isso. Pareceu-me demasiado rústico e não tão acolhedor como, na verdade, é, mas enganou-me bem. Ganhou pontos pelas gomas de pêssego em forma de coração à minha espera em ambas as noites, pela garrafa de água e pela fruta repostas, e pela simpatia das pessoas que, tanto quanto percebi, é uma condição essencial de quem vive por ali.
Surpreendi-me por ter aguentado tanto tempo sem fazer absolutamente nada de útil (devia estar mesmo esgotada) e descobri que, no fundo no fundo, até sou capaz de passar algumas horas seguidas deitadinha ao sol, numa tentativa desesperada de ganhar alguma cor que não a dos fantasmas.

Friday, 15 November 2013

Saudade

Quando se pede a um português que se pronuncie sobre o seu vocábulo preferido, é quase certo que se vai ouvir o termo saudade. É um cliché, um lugar comum, algo que muita gente sente necessidade de afirmar apenas por ser uma palavra única não encontrada em mais língua nenhuma no mundo.
Mas a verdade é que, apesar de ter uma sonoridade melodiosa, tradutora do espírito bem português do saudosismo por um tempo glorioso que foi, que esteve e que já não volta, a maioria de quem a reclama como sua preferida não pensa no seu verdadeiro significado.
O priberam diz-nos que saudade é 

1. Lembrança grata de pessoa ausente ou de alguma coisa de que alguém se vê privado.

E seria muito bonita se não tivesse a consequência: 

2. Pesar, mágoa que essa privação causa.

Sentir saudades não é um estado de espírito agradável, traz uma sensação de impotência e de dor que muito dificilmente é superada. Algumas são temporárias, é verdade, mas há outras bastante permanentes, mesmo que essa permanência não seja intermitente e, por isso mesmo, ajude a sarar, talvez só ligeiramente, com o tempo.
Hoje, mais do que nunca antes, fala-se em saudades. Saudades dos amigos que emigraram, da família que se deixou para trás, do país que se trocou em nome de uma vida melhor, de um futuro ou de um passado planeados com cuidado e deixados abandonados ao sabor do acaso. E nem por isso, ou talvez seja por isso mesmo, saudade se reveste de um sabor agradável ou de um colorido manto de significado.
Cada vez mais vejo a saudade como aquilo que não quero sentir. É mais forte do que um ódio, do que uma necessidade de vingança ou de injustiça, porque reúne-as a todas em nome do amor. Não há nenhuma palavra tão confusa como saudade.

É bom poder ter saudades. Mas senti-las dói demais.

Thursday, 24 October 2013

Galochas



Estava um pouco céptica quanto à moda das galochas, que penso nem sequer ter usado quando ainda chapinhava nas poças de água. Parecem-me sempre botas de borracha de cavar na terra, completamente sem piada, que ficam demasiado mal numa toilette do dia a dia para serem elegantes. Até que comecei a pousar os olhinhos numas coloridas, longe das banais lisas, que me pareceram compor de uma maneira bastante original as vestimentas num dia de chuva.
Chegar a casa com os pés molhados das cargas de água que apanhava em cinco minutos na rua também colaborou para que procurasse um calçado mais apropriado para estes dias como o de hoje.
Foi então que descobri que o Jumbo, orgulhoso do feito do ano passado, decidiu lançar uma nova coleção de galochas. Rendi-me às evidências e fui hoje à hora de almoço a correr buscar umas que já tinha pré-selecionado. Lá estavam elas à minha espera, quase sozinhas.
Continuo um pouco céptica quanto à parca ventilação deste tipo de calçado, mas é uma experiência cujas conclusões estou cheia de vontade de averiguar.


Tuesday, 17 September 2013

5 minutos de fama

Nas minhas simpáticas férias, enquanto passeava o meu corpinho muito pouco bronzeado junto à praia de Cascais, fui barrada, mais do que uma vez, por um aparato imenso de câmaras, gente estranhamente vestida e penteada para estar na praia, uma senhora muito stressada e um segurança barrigudo. Numa dessas ocasiões, o meu marido sugeriu, com a perspicácia que o caracteriza: 
- Grita aí "corta, corta, repete!"
E eu, que acho piada a tudo o que aquele homem diz, ri-me, no momento em que se aproximavam o rapazinho saído diretamente do Disney Kids e uma qualquer vilã chique com um forçado ar de mau. De repente tinha uma imensidão de caras zangadas a olhar para mim, como se eu achasse que estava, por exemplo, na praia, onde podia rir à vontade... Ah, espera! Mas estava mesmo. E não é como se me tivessem pedido por favor para aguardar debaixo da torreira do sol, em silêncio, enquanto eles gravavam a novela. Pelo contrário, ali a conduta foi gritar com ar carrancudo que ninguém os deixa trabalhar, impedir a passagem sem por favor nem obrigada e, de tempos a tempos, ouvir a mulher stressada a barafustar com os turistas e a ralhar "rir aqui é que não!"
Tive ali uma boa oportunidade para tornar o meu riso famoso, mas tenho uma forte suspeita de que voltaram a gravar aquela cena.

Saturday, 31 August 2013

Amoridade

Tenho uma relação cíclica de amor-indiferença com Lisboa, que começou há muitos anos, era eu uma criancinha com tios, primos, tios-avós e primos em vários graus a viver aí. Tanto que, quando chegou a altura de ir para a faculdade, quis ir estudar para a capital, sobretudo por causa das pessoas que me prendiam, e ainda prendem, a essa cidade.
Fiquei a estudar no Porto e, nos entretantos, fui dar um saltinho a Paris, cidade pela qual e onde me apaixonei perdidamente. Nunca vi cidade tão deslumbrante como esta (embora Sevilha seja uma concorrente à altura) e adotei-a como minha. Vim embora, mas deixei lá uma parte de mim.
Readaptar-me ao Porto não foi fácil, mas voltei a deixá-lo entrar no meu coração, abracei-o e mantenho-o junto a mim com um carinho imenso, alimentado por fotografias bonitas e luzes românticas refletidas num rio frio. Nesta altura, com o fim da faculdade e os primeiros empregos, uma parte dos meus amigos foi viver para Lisboa e arredores, o que me levou a voltar a acordar para ela, que esperara por mim depois do desencanto da adolescência. Visitei-a, vivi os seus dias e as suas noites alegres, aceitei as suas pessoas, tão diferentes das do Norte, mas esse sentimento manteve-se apenas um fraquinho, daqueles infantis confessados em papeizinhos dobrados, passados às amigas durante uma aula.
Até este verão. Duas semanas passadas entre o Estoril, Cascais, Sesimbra, Setúbal e Lisboa mostraram-me as suas praias, os seus parques e os seus jardins espalhados por todo o lado, com lagos e espaços verdes animados por concertos, bicicletas e vozes elevadas e o fraquinho aumentou exponencialmente até reencontrar uma paixão já não adolescente mas adulta e verdadeiramente sentida.
Agora, depois de tanto negar, não posso deixar de confessar que rapidamente me mudaria para a capital, com a certeza de que seria, provavelmente, muito feliz.

Sunday, 18 August 2013

Ir para fora cá dentro

Iniciei uma saga de conhecimento de Portugal a caminho do Estoril. Figueira da Foz, Nazaré, São Martinho do Porto, Foz do Arelho, Óbidos, Peniche e Berlengas, Ericeira, Estoril, Sesimbra e Setúbal. Tenho tido direito a champanhe e flocos de neve no hotel, ginja em copo de chocolate, banho de imersão muito quentinho, peixinho grelhado, viagem de barco, peta zetas, praia e sol, mais peixinho grelhado, chocos fritos, gelados na Santini e muitas caminhadas.
Por cá vou continuar e deliciar-me com a vida, com o marido e com os amigos até me fartar e o Porto começar a sentir a minha falta... e eu a dele.

Sunday, 11 August 2013

Bagel à beira-rio


Há dois anos andava a rever algumas temporadas de O.C., onde os bagels faziam sempre parte do pequeno-almoço. Lembro-me que havia uma família que tinha uma máquina inútil para cortá-los a meio. Fiquei, assim, com vontade de experimentar aquilo que era vendido como a última maravilha do mundo.
Por isso mesmo, quando aterrei em Nova Iorque imbuí-me do meu espírito americano e decidi experimentar um bagel genuíno, daqueles vendidos em roulotes no meio da rua, barrados com queijo creme.
Não fiquei fã. Parecia um pão mau com um buraco no meio.
Ainda experimentei mais um ou dois, mas achei sempre um falhanço da gastronomia.
Em Miragaia, a caminho da Ribeira, abriu este ano o Porto Bagel Café, cujo ar condicionado ofereceu um agradável refúgio ao calor de ontem. O design colorido do café com duas salas onde estão disponíveis revistas e livros para leitura livre é deliciosamente apelativo, pelo que passei uma parte da tarde sentada num sofá às riscas a comer um bagel torrado com manteiga e outro com compota de frutos vermelhos. Voltei a não ficar fã - é mesmo um mal geral - mas o café vende muito mais do que isso e é uma boa sala de estar para quem gosta de passear junto ao rio e quer refrescar-se no verão ou aquecer-se no inverno.

Tuesday, 6 August 2013

A gaiola dourada


É incontornável: somos um povo que gosta de futebol, de cerveja e de bacalhau regado com um bom vinho. Somos um povo que reúne a família e os amigos à volta de uma mesa cheia para lanchar, almoçar ou jantar. Somos um povo que fala alto e que ri muito. Somos um povo simpático, que gosta de acolher os de fora e de fazê-los sentir-se bem dentro das nossas portas. Somos um povo que sabe rir-se de si próprio e que leva a sua essência para onde quer que vá. E não há vergonha nenhuma nisso.
Mas, no meio deste povo, ainda há algumas pessoas complexadas, com tendência para superiorizar tudo o que seja estrangeiro e inferiorizar o que vem de dentro. E por isso mesmo, toda a gente devia ver este filme e perceber que tal como os americanos, os ingleses, os franceses ou os espanhóis se auto-caricaturizam, também nós podemos fazê-lo de uma maneira bastante cómica, ligeira e divertida. Como os portugueses.

Wednesday, 26 June 2013

Michelle de Brito vs Maria Sharapova

Os gritos quer de uma quer de outra são um pouco distrativos e os deuces sucedem-se uns aos outros impiedosamente, mas a Michelle de Brito ensinou uma lição à Sharapova. Vale a pena ver.

Sunday, 23 June 2013

Ginástica masculina

Ontem estive a ver a Taça do Mundo de ginástica artística, que está a decorrer em Portugal, na Anadia. Sempre gostei de ver as raparigas nas barras assimétricas e no solo, mas desta vez prestei atenção aos homens no cavalo e nas argolas. O cavalo com arções (que valeu uma medalha de bronze bem merecida ao português Gustavo Simões) é algo fascinante pela alterações de velocidades e pelo balanço que eles têm de ganhar para mandar as pernas pelo ar sem caírem nem bater em lado nenhum. Por outro lado, não entendo como há tantos homens a fazer aquilo sem acidentes maiores.
Mas o ponto alto foram as argolas e fiquei logo a perceber porque é que é uma modalidade exclusivamente masculina. Para além da força óbvia que já se imagina que é preciso ter para dar uma voltinha que seja naquilo, eles têm de manter cada posição um mínimo de dois segundos sem tremer nem deixar os cabos balançar. E não podem deixar que a expressão facial reflita o esforço físico que aquilo requer, que não me parece que seja pouquinho.
O tipo que ficou com o ouro (o brasileiro Zanetti) fez o que tinha a fazer como se não fosse nada de mais, sem grande esforço, expressão tranquila.
A minha principal curiosidade é: como será ser abraçada por uns braços daqueles?

Zanetti (Foto daqui)

Tuesday, 4 June 2013

As armas, as ameaças e a torre Eiffel

Há uns anos, quando estava a fazer Erasmus em Paris, escondi-me com a minha mãe de um tiroteio numa das maiores estações de metro/RER e ainda tive o desprazer de ver, pela primeira vez, um homem com uma ferida de bala na perna. Foi, também, a primeira vez que vi armas - metralhadoras - ao vivo, a cores e a palmos do meu nariz.
Entretanto habituei-me a conviver com esse tipo de armas nas raras ocasiões em que me aproximava da Torre Eiffel, mas o efeito da familiaridade passou quando vim embora e deixei aquela minha cidade.
Desta vez, enquanto corria a cidade à procura de paninis para almoçarmos, cruzei-me com um grande grupo de Gendarmerie armado e com um trio de soldados de metralhadora em punho, apenas porque estávamos no Trocadéro, em frente à maldita torre, e voltei a sentir aquele aperto no estômago e o medo de que aquela porcaria escorregue da mão de um deles, aponte para mim e me espete uma bala na barriga.
Para juntar à festa, em três dias que lá estive, houve duas ameaças de qualquer coisa, despertadas por embalagens suspeitas deixadas nas carruagens do metro.
É especialmente disto que gosto no nosso país: é tudo tão pacato e tão descomplicado que as armas são muito mais do que adereços bonitos nas mãos de um militar que se cruza connosco numa banal viagem para o trabalho.

Friday, 22 March 2013

Portugal é dos pequeninos

Eu não tenciono ser do contra. A sério que não me alimento de ter opiniões que vão ao contrário da maré da opinião coletiva, mas não me choca nada, não me intriga, não me aborrece nem me revolta o facto de o Sócrates vir a ser comentador político. Afinal, o homem foi Primeiro Ministro de Portugal eleito pela maioria dos portugueses (eu não incluída) e mantém se ligado à política, por isso, embora tenha feito muitas asneiras, é mais do que natural que haja quem queira ouvir o que ele tem para dizer. Para além disso, o mundo precisa de opiniões diferentes para formar a sua própria.
Sei que estou sempre a dizer isto, mas paremos de nos chatear com tudo o que se vai passando diariamente, sim? Negatividade e pessimismo enjoam.

Tuesday, 5 March 2013

O que é nacional nem sempre é mau


A propósito do vídeo do Turismo que anda a ser criticado por todo o lado, só consigo dizer que fui vê-lo já de pé atrás devido aos comentários tão desagradáveis que tinha lido previamente, mas acabei por gostar mesmo muito e não consegui vê-lo na perspetiva das mulheres fáceis nem dos criados obedientes.
A meu ver, demonstra apenas as qualidades por que os portugueses são conhecidos: simpatia, bom acolhimento e vontade de fazer com que toda a gente se sinta bem e em casa.
São críticas assim e vontades de ver as coisas de uma forma tão negativa que estragam tudo. E somos nós, os de dentro, os que deviam valorizar o que de positivo se faz e se tem por cá, os primeiros a denegrir tudo. Só porque sim. Só porque é mais fácil e mais divertido.

Wednesday, 13 February 2013

Shake shake and shake it

A janela estalou ligeiramente, como sempre faz quando há diferenças de temperatura.
O sofá abanou ligeiramente. Mandei o meu irmão parar, mas ele resmungou que não estava a fazer nada. Não acreditei, porque logo a seguir deixou de abanar.
Abri o facebook e descobri que tinha sido um ligeiríssimo tremor de terra.
Nunca tinha sentido nada assim.

Tuesday, 22 January 2013

Quanta alegria...

Sair do trabalho ainda de dia!


Embora esteja já mesmo mesmo a fugir e a luz só dure mais uns dois minutos.

Friday, 16 November 2012

Viagens no tempo

Recebi hoje por correio um questionário do centro de emprego para entregar até ao próximo dia 15 de novembro. Das duas uma: ou o prazo é de um ano, para as pessoas não poderem queixar-se de que não tiveram tempo; ou estão a tentar averiguar quantas pessoas neste país são capazes de viajar no tempo.
Se conseguir, comunico na semana passada.

Thursday, 8 November 2012

Abrir os olhos antes de abrir a boca

Deprimem-me (e não tenho paciência para) pessoas que só têm conversas típicas de taxistas ignorantes e alheados da realidade, uma vez que só emitem opiniões através de opiniões formuladas por outrem, seja sobre um livro, uma cidade, uma pessoa, ou sobre o país e qualquer decisão do governo.
Confesso que quando o Saramago recebeu o prémio Nobel, havia muita gente à minha volta que apregoava não gostar dele, porque escrevia mal e porque era português mas fugiu para Espanha e mais não sei o quê. Vai daí, assumi que também eu não tinha por que gostar dele. No entanto, um par de anos mais tarde, quando comecei a crescer, apercebi-me de que não havia qualquer fundamento para o meu juízo de valor, pelo que decidi ler o Todos os nomes e, a partir de então, passei a adorar a escrita do Saramago.
Hoje em dia convivo com imensa gente que ainda não cresceu nem percebeu que aquilo que os outros pensam não é obrigatoriamente aquilo que toda a gente tem de pensar. Nem todos temos de odiar Portugal, nem todos temos de jurar a pés juntos que aqui é que se está mal, que só (todos) os nossos governantes é que são incompetentes, que os portugueses são todos uns gatunos estúpidos e inocentes que não sabem fazer nada de jeito.
Orgulho-me de gostar do meu país, embora queira, a muito curto prazo, ir temporariamente viver para fora. Orgulho-me das coisas boas que se fazem aqui, dos feitos que alcançamos, das pessoas notáveis que temos, da nossa cultura e das nossas qualidades. E orgulho-me de não ter vergonha de o admitir para quem me quiser ouvir.
Não precisamos de ser uns patriotas acérrimos que defendem tudo o que se passa para cá da fronteira, mas um bocadinho mais de brio e de positivismo não fazia mal a ninguém.

Friday, 28 September 2012

Abraços e caças ao tesouro

Continuamente têm vindo a elevar-se vozes de revolta contra os fait-divers consequentes da manifestação de há duas semanas atrás. Para começar, alguns nunca acreditaram que a miúda que abraçou o polícia tivesse querido fazer um gesto verdadeiramente altruísta e significativo, mas agora as opiniões inclinam-se para declarar a pés juntos que ela sempre teve como objetivo fazer produções fotográficas e dar entrevistas. Parva de miúda, que torna-se famosa e quer ser ainda mais famosa. É um bocado como aquele, o Passos Coelho, que a partir do momento em que subiu à cadeira de primeiro ministro aparece nas revistas e nas televisões quase todos os dias. Não se compreende.
Mais recentemente descobriu-se, à moda das novelas portuguesas, um não casal de gato e de rato que quer ser casal de gatinhos siameses apaixonados e portanto o macho anda por esses meios de comunicação fora a procurar a fêmea que vai emigrar não tarda muito. É uma história que, a ser verdade, me ultrapassa um bocado, especialmente porque depois de tanta visibilidade, ela já terá visto que o esforço dele é de louvar e, provavelmente, superou as expetativas dela. Mas das duas uma, ou a rapariga se mantém escondida até a  loucura da história afrouxar para não ter a cara escarrapachada nos jornais e facebooks deste mundo, ou nunca tencionou voltar a ver o pobre do rapaz à frente.
Enfim, o cerne da questão é que toda a gente fala, critica, esmiúça e analisa estes dois desenvolvimentos diariamente. Não me entendam mal: criticar é bom, obriga-nos a pensar e a formar uma opinião, embora não consiga acreditar em alguém que, aparentemente, tem uma opinião sobre tudo e mais alguma coisa. O problema aqui é que as críticas são todas destrutivas, que a miúda é uma sabidola e que planeou a tramóia toda, e que o outro miúdo é um pateta que com a idade que tem já devia ter juízo.
Pois digo-vos que, na minha opinião, a ruiva, para além de ter aquela filosofia meio hippie do amor e da liberdade, sabe que estamos em crise e que qualquer hipótese de qualquer coisa é de agarrar. Parva era ela se dissesse que não. Quanto ao príncipe da Cinderela desaparecida, toda a gente sabe que o amor nos faz cometer loucuras daquelas de olharmos para trás e, de cara corada, pensar como é que eu fiz uma coisa destas? Pode até não ser amor e ser mas é uma paixoneta passageira, mas alimentar esta fantasia não vai fazer cair o Carmo nem a Trindade e, ao menos, os telejornais põem de parte a crise nem que seja por breves minutos, para acompanhar a telenovela da realidade, que, para cúmulo, não é um desses reality-shows que conspurcam a minha televisão.
Portanto relaxemos e não nos queixemos de tudo e mais alguma coisa, que começa a ser deprimente.