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Saturday, 27 September 2014

27 de setembro

27 de setembro de 2007 foi o dia em que a minha vida mudou. Foi o meu primeiro dia de Erasmus em Paris, onde fiquei a crescer, a conhecer, a adquirir memórias e experiências que me trouxeram até aqui, onde estou, sete anos depois.
O dia 27 de setembro levou-me ao mundo e trouxe o mundo até mim. Fez-me vê-lo, conhecê-lo e fez-me ver-me e conhecer-me a mim também, de uma maneira que julgava irrepetível.
Hoje, neste dia 27 de setembro, já passei por muito mais mundo e estou de volta ao Porto, quem sabe para sempre, com mundos temporários pelo meio. Hoje conheço-me um pouco mais e pouco reconheço daquela menina de 19 anos e aparelho nos destes que partiu rumo ao desconhecido. Agora sei que tenho mais coragem e mais força do que ela pensava, mas sou igualmente mais frágil e mais dececionável do que naquela altura. Sou menos ingénua e menos inocentemente feliz.
Neste dia 27 de setembro de 2014, se pudesse, voltava a ser a menina positivamente amedrontada de 27 de setembro de 2007, ainda livre do contacto direto com a complexidade confusa das pessoas. Com o mundo aos pés e a felicidade apenas a dois passos de distância.

Thursday, 18 September 2014

Dez anos de diferença / Ten years apart

Estar, de manhã cedo, na sala de casa dos meus pais mergulhada na penumbra, apenas com a mesma empregada de sempre por companhia, enquanto lá fora chove torrencialmente faz-me sentir que estou a viver uma daquelas experiências cinematográficas de retrocesso no tempo (também emocional) até ao meu 11º ano, quando ainda andava na escola aqui ao lado e passava as manhãs a ver MTV e a fingir que estudava.
De repente ponho o hoje e o então e quase que fico cansada com o tanto que a minha vida mudou em dez anos.


Saturday, 12 April 2014

Crescer / Growing up


Mais de três anos depois de ter, por fim, percebido que um bebé não é bem o mesmo que um boneco, olhei para o monitor em que se viu, pela primeira vez, o meu irmão mais novo. Gostei dele logo nesse momento, mesmo sem conseguir perceber a imagem diante de mim.
Veio um bebé fofo, com o cabelo mais incrível do mundo, que saiu a mim nos disparates e na maneira de ser (foi-me entregue como afilhado e eu fiz questão de que crescesse, talvez mais do que o desejado, à minha imagem e semelhança).
Não é muito crescido, mas já passou por mais do que a maioria das pessoas na idade dele, sabe o que é o medo a sério, sabe o que é superar os problemas e sabe o que é lutar contra a ansiedade. Por outro lado, sabe o que é o mimo de ser o mais novo de cinco.
O meu irmão bebé que nasceu neste século já tem mais do que uma década de vida. Fez doze anos na quarta e eu fiquei pasmada a olhar para a rapidez com que isto aconteceu que quase me apeteceu decidir não ter filhos, para não ter de vê-los a deixarem de ser bebés e passarem a adolescentes e, eventualmente, a adultos.

Thursday, 3 April 2014

Dezasseis / Sixteen


O meu irmão nasceu ainda agora. Estava no Cidade do Porto, junto ao McDonald's, quando a minha mãe me contou que estava grávida, tinha eu nove ou dez anos. Era o meu sonho: ter um bebé em casa para andar ao colo, a mudar fraldas, a dar papinhas. Mal eu sabia o trabalhão que isso dava e que a dose ia ser repetida quatro anos mais tarde (já lá iremos).
O meu irmão foi um dos bebés mais bonitos que já vi, era fofo e apetecia agarrar o tempo todo.
Hoje (ontem) fez dezasseis anos e eu não sei bem como é que o tempo passou assim a correr: já é mais velho do que eu quando o vi pela primeira vez, experimentou pela suposta primeira vez um copo de vinho e tem uma namorada. Namorada essa que me tratou por você. Consegui perceber porquê: sou baixinha, tenho comportamentos de criança, rio e falo alto mas, no fundo no fundo, sou dez anos mais velha do que ela, tenho um curso e sou casada.
Hoje senti-me, acho que pela primeira vez, velha.

Sunday, 2 February 2014

Spice Girls

Ando numa fase revivalista de ouvir os álbuns das Spice Girls e, por consequência, de cantarolar as músicas desde que acordo. É sobretudo engraçado aperceber-me das letras, agora que já as compreendo e não são, apenas, aglomerados de sons sem sentido, o que aumenta ainda mais o vício.
Neste raro momento de televisão ligada, vi que a FOXlife decidiu satisfazer as minhas necessidades e passar o filme Spice World. E eu voltei a ser uma criança histérica.



I've been going down memory lane, listening to Spice Girls' albums and singing every single song from when I wake up to when I go to bed. It is funny to finally understand the lyrics, now that they're not only abstract sounds, which gets me even more addicted.
My television is almost never on, but when I saw the screen showing that Spice World's movie was about to begin, I went back to being a hysteric child.
Actually, I think I'm a bigger fan now than then.

Wednesday, 4 September 2013

É tão 2002...


Longe vão os dias em que dividia um grande computador de secretária com os meus irmãos para fazermos as nossas famílias Sims crescer, alimentarmos e darmos banho às nossas personagens, ou, até, para fazermos a batota do rosebud e conseguirmos dinheiro suficiente para construir um casarão. Depois disso ainda joguei mais um ou outro jogo de computador, mas rapidamente perdi o interesse e me deixei disso.
Até estas férias de verão. E é aqui que entra o poder da cobiça daquilo que os outros fazem: todos os dias via uns amigos, detentores de um ipad, fazer exatamente aquilo que descrevi no primeiro parágrafo, à exceção da batota, que aquilo é gente séria e que joga segundo as regras.
Dias depois o meu marido fez anos e recebeu um tablet. Qual foi a primeira coisa que fiz? Instalar o Sims, obviamente, e agora dou comigo novamente a criar famílias com os nomes daquelas que vejo na televisão (Simpson, Griffin e por aí fora), a tratar deles, ganhar dinheiro e cumprir objetivos como se disso dependesse alguma coisa importante.

Wednesday, 29 May 2013

Paris is a moveable feast


Daqui a cinco minutos vou começar a saga de fazer as malas para o estágio-de-lua-de-mel.
Na sexta feira regressaremos durante um fim de semana à cidade que nos uniu, com planos novos e antigos,
para matarmos todas as saudades que se acumularam com o passar de quatro anos.
Voltarei à minha cidade com um anel de noivado e uma aliança no dedo e a nossa cidade, que nos viu passarmos de estranhos a amigos e, mais tarde, a namorados, reconhecer-nos-á enquanto marido e mulher.

Sunday, 27 January 2013

Viver o Porto (4)

Rua da Galeria de Paris (dia)
Na Baixa do Porto vai havendo cada vez mais bares constituídos pela zona do bar propriamente dito, e uma outra zona, mais resguardada, dedicada a música e dança, tipo discoteca. Embora sejam espaços relativamente pequenos e onde se pode fumar, são uma ótima opção para gente como eu, cuja ideia de diversão não é andar pela rua dos Clérigos para cima e para baixo com um copo na mão, à espera de encontrar gente conhecida para que a noite valha a pena.
Ontem dividimo-nos entre o Gin Club e o Rádio, numa noite que evocou os tempos idos no Tomate, há dez anos atrás, com um copo de vodka limão que durava a noite toda e um grupo pequeno de gente que se mantinha o mesmo até os pais ou os táxis chegarem.
Músicas dos anos 70, 80 e 90, lasers, uma bola de espelhos, videoclips e boa disposição, mesmo que o caminho de regresso tenha sido feito a pé, debaixo de uma chuvinha irritante, foram os ingredientes para o sucesso.
The Gin Club

Radio Bar

Monday, 4 June 2012

Harry Potter e a melancolia da adolescência


Ontem à tarde esteve a dar na televisão o Harry Potter e a Pedra Filosofal.
Deitei-me no puf a ver aqueles meninos tão pequeninos que pareciam saídos do berço mas que agora são adultos a interagir no primeiro filme da saga e a regressar à minha adolescência, quando peguei num destes livros pela primeira vez e o ofereci nos anos a uma colega minha.
Quando o Harry conhece o Ron pela primeira vez, na passagem para a plataforma 9 e 3/4, soltei duas lagriminhas, não sei muito bem porquê. Adorei os livros, adorei os filmes e fiquei melancólica quando saí da sala de cinema, no final do último dos últimos.
A J. K. Rowling foi a primeira pessoa a ficar milionária devido, apenas, aos livros que escreveu, mas não foi por acaso. As histórias são fantásticas, a maneira como as descreve também e embora visem um público especialmente jovem, a verdade é que agradaram também aos mais crescidos.
Não sou uma geek do Potter, mas sinto-me privilegiada por ter tido uma obra como esta a fazer parte do meu crescimento.

Sunday, 29 April 2012

O F.C. Porto de antes


Na altura do Deco e do Mourinho eu ficava presa à televisão quando havia um jogo do Porto, festejava as vitórias e sabia de cor o nome de cada um dos jogadores.
Entretanto o Deco e o Mourinho abandonaram-me e eu já nem sequer sei quando há jogos do Porto, nem sei o nome de nenhum jogador, porque não há nenhum que se compare ao Deco, nem nenhum treinador que se compare ao Mourinho.

Não deixei de sorrir quando hoje fui informada de que o Porto é bicampeão, mas o meu pensamento voou imediatamente para as buzinadelas e o sorriso desvaneceu-se. Espero que os adeptos sintam tanto a falta do Deco e do Mourinho como eu, que não consigam manter o nível de entusiasmo ao longo da noite.


Monday, 16 April 2012

O primeiro olhar


Lembro-me com toda a clareza de tudo o que fiz há precisamente quatro anos.
Saí de casa para ir passear sozinha pela minha cidade, como tantas vezes fazia sem me cansar. Não fui a nenhum sítio turístico nem emblemático, mas deambulei por algumas das minhas zonas de eleição. Antes de me enfiar no metro de regresso a casa parei numa das ruas menos carismáticas e de que a maioria das pessoas foge mas que eu adoro, para comprar um crepe. Fui retida pelo rapaz solitário que me atendeu e que tentou à viva força que lhe desse o número de telemóvel. Lá consegui fazê-lo acreditar na minha mentirinha de que não tinha nenhum número para lhe dar naquele momento e, ainda assim, ele desenhou com a espátula um coração na nutella dentro do crepe (algo bastante estranho e assustador).
No regresso a casa, já com a noite a espreitar, passei por uma adulta mais baixa do que eu e sorri de orgulho. Lembro-me do cheiro da zona em que morava e sei de cor o caminho desde a porta até à minha residência, cuja imagem está nitidamente gravada na minha memória.
Entrei no meu quarto e fui arrastada sem hipótese de recusa para um vernissage que se prolongou pela noite dentro com música, exposições e comida. Ele juntou-se-nos pouco depois, sentou-se no lugar vago ao meu lado e foi a primeira vez que o vi conscientemente.
Podíamos não ter encontrado nenhum interesse em comum, nem ter passado a noite toda a conversar por entre sushi e pastéis de nata, mas se assim fosse... hoje não estaríamos juntos há quase quatro anos.
Os meus passeios pela minha cidade passaram a ser feitos a dois e souberam-me muito melhor do que os anteriores.

Saturday, 14 April 2012

A lot like love


Quando acabei os exames nacionais, há quase um século atrás, peguei em duas das pessoas mais importantes da minha vida na altura e ofereci-lhes bilhetes para o filme A lot like love.
Gostei muito do filme, mas gostei especialmente do seu simbolismo naquele dia em que, finalmente, me livrava dos apontamentos, dos livros e dos estudos intensivos para tentar fazer as minhas notas corresponder às minhas expectativas.
Desde então tenho ouvido imensas vezes esta música, embora admita que é um bocadinho deprimente. Sei-a de cor e lembro-me sempre daquele momento em que estávamos os três sentados à porta do centro comercial a partilhar a sobremesa.
Agora está a dar esse mesmo filme no canal Hollywood e eu estou a revê-lo, especialmente porque gosto cada vez mais do Ashton Kutcher e porque é bom ter ao meu lado exatamente a pessoa que quero, sem nunca ter tido a sensação de ter deixado a oportunidade ou o tempo passar.

Saturday, 17 March 2012

Nestum de amêndoas e mel


Quando era miúda adorava a hora de ir para a cama, porque era a única altura do dia em que não ia ter de travar uma luta contra o tempo em relação à comida. Até aos oito anos comia muito mal, era muito esquisita e demorava horas intermináveis para comer um prato de sopa, mas tudo o que fosse doce era completamente aceite por mim: caramelos, rebuçados, gomas e todas as papas de chocolate.
Entretanto surgiu aquela que me fez gostar mesmo de comer, pela qual me lambuzava toda e que comia num instante, sem precisar de despertadores nem de contagens decrescentes: a Nestum de amêndoas e mel. Fazia sempre uma papa super grossa e deixava uns flocos secos em cima que deixava para último.
Acho que é por causa dela que adoro tudo o que tenha massapan.
Entretanto andei a fazer uma reeducação alimentar implementada por mim mesma e cortei em tudo o que tinha açúcares extra durante cerca de dois anos. Quando voltei a cometer algumas loucuras, fui logo à procura da melhor refeição da minha infância, que vinha embrulhada numa embalagem esverdeada, mas a deceção foi enorme quando vi uma prateleira cheia de papas, mas sem nenhum exemplar daquela que eu mais queria.
Foi assim que tive conhecimento de que a Nestum de amêndoas e mel nos deixou para sempre, abandonou-me e não fez por voltar, mas de vez em quando ainda vou sentindo, de memória, um ligeiro aroma e um breve sabor àquela mistura perfeita que dava tudo para poder voltar a saborear.
Alguém sabe de algum recanto onde ainda a possa encontrar?