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Monday, 20 October 2014
Nostalgia
Todos os dias de manhã fazia o mesmo percurso: saía do metro na estação do Luxembourg, sempre na mesma saída, subia a rua, virava à esquerda, depois à direita, subia um bocadinho mais e, logo ao lado de uma boulangerie bem cheirosa, atendida por uma senhora mal humorada, ficava a porta da minha faculdade. Fazia sempre esse mesmo caminho, dia após dia, até que num deles, não sei porquê, me virei para trás. E foi então que a vi, ali no meio, imponente: a Torre Eiffel via-me todos os dias, de manhã e de tarde.
Paris tem encantos que ainda não descobri em mais lado nenhum no mundo.
Adorei, mas não sei se voltava a viver lá. Não sei, sequer, se voltava a viver aquele ano, porque o que aí vivi aí ficou, embora continue para sempre comigo, exatamente como diz o Hemingway: If you are lucky enough to have lived in Paris as a young man, then wherever you go for the rest of your life, it stays with you, for Paris is a mouveable feast.
E se calhar foi por isso mesmo que não consegui acabar de ver este vídeo (http://vimeo.com/14502628) sem que umas lágrimas viessem aqui dar o ar de sua graça.
Nostalgia. Acho que é essa a palavra.
Saturday, 27 September 2014
27 de setembro
27 de setembro de 2007 foi o dia em que a minha vida mudou. Foi o meu primeiro dia de Erasmus em Paris, onde fiquei a crescer, a conhecer, a adquirir memórias e experiências que me trouxeram até aqui, onde estou, sete anos depois.
O dia 27 de setembro levou-me ao mundo e trouxe o mundo até mim. Fez-me vê-lo, conhecê-lo e fez-me ver-me e conhecer-me a mim também, de uma maneira que julgava irrepetível.
Hoje, neste dia 27 de setembro, já passei por muito mais mundo e estou de volta ao Porto, quem sabe para sempre, com mundos temporários pelo meio. Hoje conheço-me um pouco mais e pouco reconheço daquela menina de 19 anos e aparelho nos destes que partiu rumo ao desconhecido. Agora sei que tenho mais coragem e mais força do que ela pensava, mas sou igualmente mais frágil e mais dececionável do que naquela altura. Sou menos ingénua e menos inocentemente feliz.
Neste dia 27 de setembro de 2014, se pudesse, voltava a ser a menina positivamente amedrontada de 27 de setembro de 2007, ainda livre do contacto direto com a complexidade confusa das pessoas. Com o mundo aos pés e a felicidade apenas a dois passos de distância.
Thursday, 12 June 2014
Momentos felizes / Happy moments
Há uns anos, quando estava em Paris, na altura do Natal tive um momento feliz que dificilmente esquecerei. Estava a passear com umas amigas, rodeadas por um frio incrível, e ficamos paradas, as quatro em cima de uma ponte, com o Sena a passar-nos por baixo, a ouvir um homem tocar acordeão. Não falamos, não dissemos absolutamente nada, ficamos apenas ali, a sentirmo-nos felizes em contacto umas com as outras e com uma cidade maravilhosa.
Ontem ao final da tarde voltei a ter um momento desses. Ao passar pela ponte de Waterloo, senti que a minha vida tinha uma banda sonora escrita de propósito para ela. Sentado no chão, um homem tocava na guitarra (e o quanto eu adoro o som da guitarra...) uma música que não conheço e eu deixei-me ficar ali, a sentir, sem pensar. A viver, por cima do rio, um momento feliz que dificilmente esquecerei.
Thursday, 29 May 2014
Paris - Londres / Paris - London
É quase impossível pedir a alguém que já esteve em Paris para que não estabeleça comparações entre Paris e Londres. São ambas duas grandes capitais europeias, emblemáticas, românticas, cosmopolitas, cheias de vida e de ofertas a todos os níveis. Como é natural, embora tente não o fazer, o meu cérebro acaba, inevitavelmente, por pô-las lado a lado.
Uma grande diferença de Londres em relação a Paris é que, embora ambas as cidades sejam habitadas e frequentadas por um grande número de estrangeiros, aqui em Londres ouço muito menos falar inglês (com sotaque europeu) do que ouvi/ouço falar francês em Paris.
Paris, neste aspeto, peca pela hospitalidade, bem sei. Não me senti alvo de qualquer espécie de estigma, provavelmente por saber falar francês, mas aqui, para além da vantagem da internacionalidade da língua, os locais estão à espera de, a qualquer momento, contactar com um estrangeiro, facto que aceitam com naturalidade, segundo me tem parecido.
A existência de pubs aqui não é novidade para ninguém, é certo, pelo que se pressupõe que, tal como acontece em Paris com as happy hours no centro, as pessoas gostam de se reunir depois do trabalho e ao fim de semana para beber um copo. Uma vez mais, notei uma diferença brutal entre as duas cidades: se em Paris se viam praticamente só jovens (estudantes de Erasmus, sobretudo) bêbedos ao ponto de andar aos S, em Londres vê-se todo o tipo de gente, de todas as faixas etárias e sociais a cair de bêbeda às 17h de uma quinta-feira, por exemplo (algo que ainda me mete bastante confusão).
Suponho que não se limite a Paris/Londres, mas já tinha reparado e tenho reparado agora que a diferença, quer numa quer noutra, é tratada como se fosse banal. Quando fui à entrevista para o National Insurance Number, fui atendida por um rapaz de crista e piercing no nariz, enquanto na mesa ao lado estava uma senhora vestida com um fato de saia e casaco. Gosto disso, de haver uma multiplicidade de aspetos e personalidades e todas elas se cruzarem numa harmonia quotidiana.
Tuesday, 25 March 2014
Tuesday, 4 June 2013
As armas, as ameaças e a torre Eiffel
Há uns anos, quando estava a fazer Erasmus em Paris, escondi-me com a minha mãe de um tiroteio numa das maiores estações de metro/RER e ainda tive o desprazer de ver, pela primeira vez, um homem com uma ferida de bala na perna. Foi, também, a primeira vez que vi armas - metralhadoras - ao vivo, a cores e a palmos do meu nariz.
Entretanto habituei-me a conviver com esse tipo de armas nas raras ocasiões em que me aproximava da Torre Eiffel, mas o efeito da familiaridade passou quando vim embora e deixei aquela minha cidade.
Desta vez, enquanto corria a cidade à procura de paninis para almoçarmos, cruzei-me com um grande grupo de Gendarmerie armado e com um trio de soldados de metralhadora em punho, apenas porque estávamos no Trocadéro, em frente à maldita torre, e voltei a sentir aquele aperto no estômago e o medo de que aquela porcaria escorregue da mão de um deles, aponte para mim e me espete uma bala na barriga.
Para juntar à festa, em três dias que lá estive, houve duas ameaças de qualquer coisa, despertadas por embalagens suspeitas deixadas nas carruagens do metro.
É especialmente disto que gosto no nosso país: é tudo tão pacato e tão descomplicado que as armas são muito mais do que adereços bonitos nas mãos de um militar que se cruza connosco numa banal viagem para o trabalho.
Wednesday, 29 May 2013
Paris is a moveable feast
Daqui a cinco minutos vou começar a saga de fazer as malas para o estágio-de-lua-de-mel.
Na sexta feira regressaremos durante um fim de semana à cidade que nos uniu, com planos novos e antigos,
para matarmos todas as saudades que se acumularam com o passar de quatro anos.
Voltarei à minha cidade com um anel de noivado e uma aliança no dedo e a nossa cidade, que nos viu passarmos de estranhos a amigos e, mais tarde, a namorados, reconhecer-nos-á enquanto marido e mulher.
Thursday, 20 September 2012
Primeiros passos nisto do casamento (6) - a data
Há quatro anos e tal, quando eu e o meu amor começámos a dar beijinhos e a andar de mãos dadas, assumi que éramos namorados. Pois acontece que algum tempo depois ele me levou a passear pelas margens do rio da nossa cidade e, num recanto escuro (agora que penso nisso até pode ser um local bastante propenso a crimes, que ninguém passa por lá, não se vê nada e tem acesso direto às águas profundas), desceu um degrau para ficar da minha altura e perguntou-me se queria namorar com ele.
Derreti-me, disse que sim e cá estamos.
Ainda assim, celebramos o nosso aniversário de namoro no dia em que começámos a namorar e não no dia em que ele fez este gesto tão romântico (a verdade é que às vezes até nos esquecemos dele).
Quando começámos esta saga, eu queria casar em setembro, porque está quentinho e já deixei de parecer um fantasma transparente, mas não pode ser. Queria, então, o dia 9 de junho, porque embora seja um domingo, acaba por ser como um sábado, porque para o ano o dia seguinte vai ser feriado e assim celebrávamos o nosso aniversário de casamento sempre na véspera de um feriado. Também não pode ser.
Decidimo-nos, então, por um dia muito bonito, que até fica muito bem no papel, naquela quinta por que nos apaixonámos mal a vimos.
Pois então apercebi-me há pouco tempo de que vamos casar no dia em que fui pedida em namoro. Lá vou eu, precisamente cinco anos depois, voltar a dizer que sim.
Sunday, 16 September 2012
Reencontros
O meu amor deixou-me, durante uma semana, para se passear na nossa cidade sem mim. Vá, para ser justa, não foi só passear, que ele é uma pessoa importante e foi orador numa conferência de grandes dimensões, mas o cerne da questão é que me deixou cá a lamuriar-me de saudades e a temer as duas mini viagens de avião que o esperavam. Para me distrair e ajudar o tempo a passar mais rápido adiantei prendas de Natal em tricot, não fiz wake porque me magoei a fazer tricot, fui ao cinema, dormi até tarde e escrevi que me fartei. E não custou assim tanto.
Mas bom bom bom foi quando acordei na sexta-feira a meio da manhã e me arranjei para ir buscá-lo ao aeroporto. Pelo caminho ia aos gritinhos dentro do carro, como uma pita histérica, que se intensificaram quando vi o avião dele a sobrevoar-me, mesmo à chegada ao aeroporto.
E o melhor de tudo foi voltar a abraçá-lo, a beijá-lo e a sentir-lhe o perfume que tanta falta me fez.
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Saturday, 23 June 2012
A minha cronologia
Há doze anos apaixonei-me pelo filho de uma professora minha. Escrevia o meu nome com os apelidos dele e achava que combinavam perfeitamente, especialmente porque ele era uma pessoa muito simpática, muito correta e que me tratava amorosamente, apesar de nunca como eu queria.
Três anos depois cresci, entrei para o secundário e perdi-me de amores por um bad boy não muito bonito (agora que penso nisso à distância acho, até, que tinha ar de sujo), algo convencido, bastante inteligente mas daqueles que não sabem aproveitar a inteligência que lhes foi oferecida e, para variar, era um querido comigo, mas andei anos à espera do beijinho que nunca chegou.
Há quatro anos mandei-me para Erasmus, perdi-me de amores apaixonantes pela minha outra cidade e pelo homem da minha vida, que conheci lá.
Quatro anos depois metemo-nos num avião rumo a Londres e ele levou, em segredo, uma caixinha no bolso. Ajoelhou-se, estendeu-me a caixinha com um anel lindo e pediu-me para casar com ele num bocadinho de tarde soalheira no Hyde Park, no meio da relva, sem ninguém à volta.
Eu disse que sim e sinto-me a mulher mais feliz do mundo.
Tuesday, 8 May 2012
4 ♥
Há quatro anos esperei por ti debaixo da torreira do sol para mais um dos nossos habituais passeios a dois. Chegaste e cumprimentaste-me pela última vez com dois beijos na face. Eu tremia por todo o lado e não sabia se a tarde ia corresponder às minhas expetativas, mas segui-te pelos caminhos que me indicaste.
Subimos e descemos ruas e deste-me o beijo prometido e mais outros não prometidos mas desejados.
Levaste-me para a Ribeira e passámos horas agarrados entre o falar e o não falar.
Quando me fui embora, o teu cheiro tinha ficado embrenhado em mim com medo de se afastar e eu sentia-me inebriada pelo teu perfume que me acompanhava, mesmo quando já me tinha separado temporariamente de ti. As nossas mãos tinham-se largado, mas eu ainda sentia o teu toque, ainda ouvia as palavras que me tinhas murmurado ao ouvido e via os olhos com que fixaste os meus.
Foi aí que deixámos de ser apenas amigos e nos tornámos no princípio daquilo que somos agora.
Quando te conheci, depois de descobrir que afinal não eras estrangeiro, soube que ia namorar contigo. Não podia era saber que iria viver contigo os melhores, para já, quatro anos da minha vida.
Monday, 16 April 2012
O primeiro olhar
Lembro-me com toda a clareza de tudo o que fiz há precisamente quatro anos.
Saí de casa para ir passear sozinha pela minha cidade, como tantas vezes fazia sem me cansar. Não fui a nenhum sítio turístico nem emblemático, mas deambulei por algumas das minhas zonas de eleição. Antes de me enfiar no metro de regresso a casa parei numa das ruas menos carismáticas e de que a maioria das pessoas foge mas que eu adoro, para comprar um crepe. Fui retida pelo rapaz solitário que me atendeu e que tentou à viva força que lhe desse o número de telemóvel. Lá consegui fazê-lo acreditar na minha mentirinha de que não tinha nenhum número para lhe dar naquele momento e, ainda assim, ele desenhou com a espátula um coração na nutella dentro do crepe (algo bastante estranho e assustador).
No regresso a casa, já com a noite a espreitar, passei por uma adulta mais baixa do que eu e sorri de orgulho. Lembro-me do cheiro da zona em que morava e sei de cor o caminho desde a porta até à minha residência, cuja imagem está nitidamente gravada na minha memória.
Entrei no meu quarto e fui arrastada sem hipótese de recusa para um vernissage que se prolongou pela noite dentro com música, exposições e comida. Ele juntou-se-nos pouco depois, sentou-se no lugar vago ao meu lado e foi a primeira vez que o vi conscientemente.
Podíamos não ter encontrado nenhum interesse em comum, nem ter passado a noite toda a conversar por entre sushi e pastéis de nata, mas se assim fosse... hoje não estaríamos juntos há quase quatro anos.
Os meus passeios pela minha cidade passaram a ser feitos a dois e souberam-me muito melhor do que os anteriores.
Wednesday, 22 February 2012
Keep calm and read my blog (4)
Quando comecei a ler o Cartas à Filosofia, já há cerca de quatro anos, não simpatizei com a Elite, mas, por alguma razão que desconhecia, continuei a lê-la. O blogue e a escrita dela eram viciantes, mas só me apercebi disso mais tarde.
Ela morava na minha cidade, naquela que eu tinha acabado de deixar e que conhecia perfeitamente, mas ela conhecia-a melhor ainda e lá continuava, sem ideias de a abandonar. No fundo, a minha perceção estava barrada por uma cortina de inveja misturada com saudades e nostalgia de algo que fazia parte de mim mas que nunca voltaria a ter na sua plenitude.
Essa fase passou e consegui compreender que a pessoa cujo pseudónimo é Elite e que escreve cartas à Sofia é uma pessoa fantástica e que escreve de uma maneira fenomenal sobre tudo: sobre o mundo de cá e de lá, sobre comidas, viagens e pessoas e tem sempre uma palavra simpática para dar como resposta.
Até há muito pouco tempo tinha a certeza de que ia conhecê-la pessoalmente, na minha cidade ou na dela. Porém, se entretanto a vontade se manteve, a certeza já não tanto. E tenho imensa pena de não ter começado a lê-la apenas uns meses antes, quando morávamos a umas estações de metro uma da outra.
Mas seja em Portugal, em Paris ou em Angola, o Cartas à Filosofia deve ser um endereço obrigatório para toda a gente.
Thursday, 2 February 2012
La chandeleur
De manhã li que hoje, em França, foi o dia da Chandeleur, ou, em português, o dia dos crepes. E como gosto de ser fiel às tradições que me interessam, para a sobremesa fiz crepes com chocolate.
Não estavam comparáveis aos melhores que já comi em Paris, mas estavam muito bons.
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